Pedestre passa por mural em Caracas, capital do país, que diz ‘A Venezuela quer paz’
Foto: Juan Barreto/AFP
Pedestre passa por mural em Caracas, capital do país, que diz ‘A Venezuela quer paz’
Foto: Juan Barreto/AFP
A Venezuela foi palco de uma intervenção de grande porte dos Estados Unidos no último sábado (3), após tropas norte-americanas bombardearem o país e capturarem o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Ele foi encaminhado para Nova Iorque, onde permanece preso, e irá responder a acusações de crimes como narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína e porte ilegal de armas.
No país e fora dele, venezuelanos comemoraram a queda de Maduro. Parte deles, inclusive, voltou a sonhar em poder retornar para casa. O jornal O TEMPO Betim conversou com alguns refugiados que moram na cidade. Todos foram unânimes em dizer que têm expectativas de que o país viva um novo momento a partir de agora.
É o caso da jornalista Yolis Lyon, que migrou para o Brasil em 2012. Em Betim, ela está desde 2023. “O povo venezuelano comemora a prisão de um criminoso, responsável pelo assassinato de milhares de seus opositores”, afirmou.
Segundo ela, o marido, que era militar, foi morto após denunciar atos do governo de Maduro que infringiam os direitos humanos. “Eu trabalhava como jornalista investigativa e também atuava denunciando esses abusos. No dia em que meu marido foi morto, ele estava em outra cidade, a dez horas de distância de mim. Fui alertada de que também deveria fugir do país, pois estava sendo ameaçada. Eu nem sequer pude viver meu luto”, lamenta.
Na época, ela veio para o Brasil com os dois filhos mais velhos, deixando para trás a caçula, com apenas 2 meses, e uma vida estabilizada. “Hoje, falo abertamente sobre a situação em memória do meu marido. Somos gratos ao Brasil, mas queremos voltar para nosso país”, relata.
De acordo com dados do É o número de refugiados venezuelanos na cidade, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.
A professora Yorgelis Gonzalez mora em Betim desde 2022 e também veio para o Brasil após a crise na Venezuela. Ela, que migrou com três filhos, soube do ataque dos Estados Unidos por meio de uma ligação do marido, que continua no país. “Ele me ligou de madrugada e relatou o que estava acontecendo. A Venezuela era um país lindo. Depois (de Maduro), as coisas pioraram muito”, conta.
Yorgelis lembra que, enquanto morava lá, a inflação era alta, o salário mal durava 15 dias, e a dificuldade de comprar itens básicos era grande. Por isso, ela decidiu se mudar. Porém, a saudade de casa bate forte no peito. “Desejo que as coisas se modifiquem pra que eu possa voltar com minha família”, afirma.
Para ela, a sensação é de apreensão sobre o que está por vir e também de expectativa por melhorias. “A maioria dos venezuelanos está comemorando, mas todos estão apreensivos por não saberem o que acontecerá a partir de agora, já que aliados de Maduro pedem a libertação dele”, comenta.
O venezuelano John Vargas, indígena da etnia Warao – que vive na ocupação Mãe Terra, na região do PTB –, também almeja que autoridades de outro partido que não seja o de Maduro assumam o poder para que a Venezuela viva um novo tempo e se reconstrua. “Essa intervenção precisava ser feita, pois muitas pessoas inocentes morreram simplesmente por não concordarem com ele (Maduro)”, diz.
Ele mora no Brasil há sete anos e, apesar das chances de mudança no país de origem, não planeja voltar pra Venezuela. “Temos saudade da nossa terra, mas queremos nos estabelecer aqui, no Brasil”, afirma.
De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, até novembro do ano passado, 378 refugiados venezuelanos moravam em Betim.
Veja entrevista com o professor do Departamento de Ciência Política da UFMG, Lucas Pereira Rezende:
O que a queda de Nicolás Maduro representa para a Venezuela? Você avalia que houve violação da soberania do país?
Representa o início do fim de um regime que, há mais de duas décadas, organiza e está na centralidade da política venezuelana. Representa, além de tudo, uma ruptura da soberania da Venezuela e de toda a América Latina. Vejo duas situações indesejadas: por um lado, Maduro já, há muito tempo, não era um governante legítimo, nem democrático e não representava mais aquilo que nós, cientistas políticos compreendemos como o mínimo para a existência de uma democracia. Nas últimas eleições existem amplas denúncias de fraude e isso significa que, tanto nacionalmente, quanto internacionalmente, o regime de Maduro já dava muitos sinais de que precisava chegar ao fim. Mas a forma como isso aconteceu foi tão ruim quanto. Primeiro, porque houve o desrespeito a soberania de um país que não estava, de fato, ameaçando os Estados Unidos. A desculpa dada por Donald Trump é furada. Existe uma ampla gama de crimes cometidos por Nicolás Maduro pelos quais ele deveria ser julgado ou em cortes internacionais devidas ou pela própria justiça da Venezuela. Caberia a eles levar a cabo os julgamentos e as condenações pelos muitos crimes reais pelos quais Maduro é acusado. Essa tentativa de enquadrá-lo dentro de narcoterrorismo, de sequestrá-lo, de ser um presidente em exercício e ter seu país invadido por um governo estrangeiro, é muito grave. Isso muda tudo na forma das relações internacionais.
De que forma essas mudanças podem alterar o mercado do petróleo no país?
Vai mudar tudo. O petróleo, que vinha num processo de estatização, feita ainda sob o governo de Hugo Chávez, agora tem futuro incerto. Não se sabe o que irá acontecer, mesmo porque essa situação é tão inédita que não há previsão legal nem doméstica, nem internacionalmente.
Na sua opinião, o que a Venezuela e o mundo podem esperar a partir dessa intervenção?
Primeiro coisa: um não enfrentamento aos Estados Unidos. O governo Trump deixa muito claro que sua doutrina de segurança internacional é extremamente expansiva e agressiva. Logo depois de fazer o que fez com Maduro, (Trump) fez também uma ameaça ao presidente da Colômbia e à Groenlândia. A política externa dos Estados Unidos hoje não é mais uma política democrática. É uma autocracia eleitoral.
Donald Trump tem ameaçado ações semelhantes em outros países. Você acha que ele pode vir a executar, de fato, essas ações?
Sim. Se tem uma coisa que Trump realmente faz é nos surpreender por fazer aquilo que ele diz que vai fazer. Não podemos, em momento nenhum, duvidar disso, até porque a forma de exercício dessa política externa é bastante diferente. O governo Trump tem características perigosas. Além do seu distanciamento da democracia ecoa-se muito as políticas semelhantes aos piores movimentos políticos da história, que foram os totalitários na Alemanha e na União Soviética no século XX. Então, sim, ele pode vir a executar o que esta prometendo. Quem pode pará-lo? Somente a sociedade dos Estados Unidos através do serviço da democracia e do voto.