OPINIÃO

Regresso ou progresso

Nossa cultura ignora por completo causas que não cabem mais debaixo do tapete

Por Vittorio Medioli


Publicado em 18 de janeiro de 2026 | 14:41
 
 
As proteínas estão na natureza e nos vegetais, produzidas naturalmente em processos de síntese proteica dos vegetais

Quando compramos um produto, pensamos no seu preço, no benefício que pode representar, na tecnologia “embarcada”, na satisfação e no prazer que concede. Raramente se pensa na cadeia de ações e reações, nas injustiças, no sofrimento que o produto gerou para chegar até nós. Mais recentemente, passou a se avaliar a pegada de carbono como responsável pelo aquecimento global. Em breve, a pegada será destacada em cada produto, como são hoje os açúcares, o álcool, o glúten e outros.

Quando um ser humano come um bife ou um peito de frango, de regra se preocupa com as sensações do paladar, com as proteínas; não pensa no que custou aquele pedaço de carne para chegar ao estômago dele nem nas consequências e extermínios que gerou.

Somos acostumados desde criança: “A carne é indispensável e faz bem”. Em seguida o jovem aprende que uma dose de proteínas é necessária para manter a forma. Mas o bife e o peito são carnes de animais veganos, de seres cuja carne é comestível pelo fato de não consumirem proteínas animais, altamente tóxicas. Quando isso acontece, o mal da vaca louca acaba com os rebanhos e deixa as carnes imprestáveis para o consumo, verdadeiro veneno.

A carne de urso polar, carnívoro, exterminou por intoxicação os primeiros exploradores do polo antártico. O leão e panteras não comem carne de outros carnívoros, apesar de, por razões de sobrevivência, matarem outros carnívoros.

O boi precisa de proteínas, o frango também, assim como o homem. As proteínas estão na natureza e nos vegetais, produzidas naturalmente em processos de síntese proteica dos vegetais. O feijão, o trigo, o milho, a soja, o grão-de-bico, o gergelim e outros possuem doses proteicas expressivas, que podem satisfazer o equilíbrio de uma dieta. No planeta os povos vegetarianos e alguns veganos representam milhões de seres humanos, que vivem há milhares de anos em paz.

Pesquisas recentes de universidades americanas e europeias concluíram que o veganismo se reflete em ganhos de saúde e longevidade, especialmente quando é praticado desde a primeira idade. Estudos realizados encontraram diferenças de dez anos ou mais, além de menores taxas de colesterol, diabetes, hipertensão e maior capacidade intelectiva no vegano em relação ao onívoro. O cérebro funciona melhor, e vegano raramente contrai Alzheimer, possui menos rugas e manchas, reflete sinais exteriores mais agradáveis.

Mas, além de fatores de saúde, é necessário considerar desde a origem toda a cadeia, seus impactos na “vida” do planeta, que, afinal, é o conjunto da  manifestação divina perceptível.

O sofrimento dos homens, dos animais, a exploração brutal, as injustiças, a poluição, que representam o produto que compramos, e sua interligação com o destino do planeta já se fazem mais que evidentes. Consagraram-se.

As emissões têm efeito globalizado, planetário. Sutilmente, mas não menos brutalmente, o sofrimento humano permeia o planeta.

Esconde-se que a maior causa de efeito estufa são as proteínas animais, a criação forçada de rebanhos confinados, com 31% de todas as emissões, enquanto a mobilidade representa 21%. Alguém levanta questionamentos? Numa civilização que sepulta o maior dos problemas e torna a proteína animal indispensável, temos a cada dia o consumo de carne proliferando sem questionamentos, ampliando a crueldade em escala industrial.

A morte de bilhões de seres vivos a cada dia embrutece seus algozes. O Brasil, maior produtor e exportador de carnes do planeta, concentra também as maiores fortunas do setor. A picanha é uma arma eleitoral. Nossa cultura ignora por completo causas que não cabem mais debaixo do tapete.

Os produtos que vêm do Oriente asiático são frutos de uma jornada de trabalho de 12 horas, de segunda a sábado, de apenas cinco dias de férias por ano, de punições arbitrárias, de ausência de amparo sindical e de Justiça trabalhista. Não há verbas rescisórias nem direito a contestar abusos. Escravidão, opressão, ditadura disfarçada de socialismo moderno, geradoras de genocídios e êxodos. Estados de direito democrático? Ou pretextos para empoderar o arbítrio?

Ser competitivo não é apenas uma questão de tecnologia. A sobrevida das indústrias no Ocidente obriga a adotar os mesmos métodos que fazem certos produtos imbatíveis. A desindustrialização não tem trégua. Devemos passar nossa jornada de trabalho para 72 horas semanais, nossas férias para cinco dias no ano, como na China? Devemos acabar com a sindicalização, retirar os direitos da CLT? É preciso pensar, e nisso as barreiras são uma reação natural, até para elevar as condições de civilização e socialização onde carecem, não internamente, mas lá fora.

No esforço de considerar a autonomia de cada país uma questão meramente “interna” e de “soberania popular”, ocultam-se os males que apodrecem o planeta, a falta de liberdade, a escravidão disfarçada, a brutalidade contra as mulheres, contra os animais e que se transferem para toda a humanidade, forçando ao regresso, e não ao progresso.